
Roberta andou pensando e refletindo sobre como as coisas
tinham se tornado tão pesadas. Quando ele, de repente, ligasse e perguntasse o
porquê da ausência, ela responderia com indiferença que ela tinha andado
ocupada com a faculdade e que estava tudo bem, ou poderia ousar responder que
ele sempre dizia estar ocupado e não demonstrava sentir sua falta. Isso doía
mais do que se poderia prever.
Ela caminhava, esta tarde, afim
de refletir sua nostalgia, pela praça que outrora tanto evitara. De repente se
sentia miúda, rastejava sobre todos os eventos cotidianos de sua vida, ele
estava em quase todos. Parecia até que seu cérebro só queria que ela pensasse
nos momentos em que seu amigo estivera presente. Sentou-se no banco em frente
ao poste que só acendia uma luz. Suspirou. Foi ali que pedirá Flavia em namoro
em frente aos seus amigos íntimos, todos aplaudiram dizendo como eram lindas,
como foram feitas uma para a outra. Lá estava ele, Pedro, também as elogiando e
fazendo festa, tecendo planos como se fizesse parte de alguma família
estabelecida ali. De algum modo Roberta entendia que aquilo, que era tão bom e
tão lindo, era algo passageiro, já tivera sofrido tempos antes do mesmo mau,
mesmo assim ela se obrigou a esquecer de seu passado e agarrou com todas as
forças a aquele sentimento.
Levantou-se do banco, pegou o
celular e pensou em enviar um SMS para ele, afim de dizer algo do tipo, estou
com saudades, sei lá, aparece aqui em casa qualquer dia, mas se conteve. Isso
não faria diferença alguma, concluiu. Pensou como era engraçado, sofrer assim
por um afastamento tão comum da vida. Pessoas vem e vão o tempo inteiro, tinha
se sentido magoada algumas vezes por perder algumas pessoas importantes de sua
vida, mas dessa vez estava sendo exagerada. Tentou se convencer sem sucesso,
ele era importante, sim, com certeza. Lembrou-se de quando, dois anos atrás,
estava em casa, quase cortando os pulsos de tanta aflição, a vida estava a
detonando, tudo estava errado em todos os lugares, e a Campânia da sua casa
tocou, inútil som, xingou e foi atender ao portão. Pedro, nem eram tão íntimos
assim ainda, fora a sua casa e lhe enchera praticamente a noite inteira sobre seus casos da vida. Daí
em diante nasceu um sentimento de irmandade, uma amizade que parecia que desta
vez lhe viera para sempre. A companhia
foi reciprocamente bela, tivera sua fidelidade a todos os momentos em que mais
precisou até chegar o momento em que ambos tiveram suas vidas tomadas pelo
trabalho e estudos.
Roberta se dedicara completamente a
faculdade, se tornara presente em quase todos os setores possíveis aos quais
poderia se encaixar, o pouco tempo que lhe sobrava passava com Flavia, a quem
estimava ao máximo. O tempo agora a fazia até mesmo se perguntar se estava no
caminho certo da vida, se queria mesmo a profissão a qual seguia. Na verdade ao
elencar tudo o que se passava em sua mente, agregou com a ausência que atribuía
ao amigo era uma forma de se perguntar sobre todos os outros problemas da sua
vida. Se ele não estava mais presente, então também significaria que pelo mesmo
motivo todas as outras pessoas tinham saído sem explicações de sua vida. Então
o problema era com ela? Ou era com consigo mesmo?
Deixou o carro no estacionamento do
Shopping e foi caminhando, ainda perdida em pensamentos torturantes, será que
era véspera de réveillon e o fim de ano a estava atormentando ou sua
consciência a pregou-lhe uma peça de muito mal gosto? Só queria deixar as
coisas rolarem, se esquivarem de si mesmo.
Olhou a vitrine de uma loja de chocolate, entrou e comprou cinco trufas
de chocolate amargo os quais guardou para mais tarde. Comeria enquanto
estivesse colocando suas leituras em dia, se esforçaria hoje a noite, a tanto
tempo abandonara seus hobbies para ficar
na cama pensando em qual o verdadeiro sentido da vida. Voltou para casa, o
shopping definitivamente não lhe agradava naquele momento. Sentou-se na cadeira
em frente ao notebook, olhou a tela pelo menos umas dez vezes e dane-se irei
resolver isso agora mesmo, não há
conflito melhor resolvido que não seja através de uma conversa. Botou-se a
ligar, chamou, chamou, até dá caixa. No mínimo ele deveria estar tomando banho,
ou dormindo, ligou outra vez, e outra vez e tornou-se a cair na caixa de
mensagem. Amanhã será outro dia, e novamente caiu na caixa. Às vezes deixamos
pra lá, as vezes nos importamos, mas em algum momento as coisas sempre irão
cair na caixa. Provavelmente nós seres
humanos não somos tão determinados assim para conseguir levar tudo que
almejamos até o fim, as vezes o fim nos encontra primeiro. Reflexão feita,
tomou um banho quente, se serviu de um chocolate com bolo, sentou-se no sofá
comendo e percebeu o quanto a ausência estava se tornando uma rotina banal.
Então é isso, aos poucos irei esquecer
até não doer mais. Entrou no carro, ligou o som com seu cantor favorito no
máximo, desceu toda a avenida sem se preocupar com limite algum de velocidade,
acelerou até aquele sentimento perturbador passar. E passou. Estacionou em
frente a casa de Flavia e a convidou a tomar um drinque em algum lugar. Vamos
sair, comemorar, hoje estou me tornando livre! Flavia não questionou, como
sempre. Fingiu não entender, era melhor não perguntar e deixar o momento
acontecer.