Conto: (Não) Escrito nas Estrelas

(Not) Written in the stars



Estava sentada em frente ao computador distraída, checando as últimas idiotices enviadas para o meu e-mail, pensando o porquê de as pessoas acreditarem tanto nessas correntes da AOL em que alguma pessoa qualquer vai ganhar um centavo por um e-mail. É tão ilógico, como é que eles não percebem isso? O ser humano realmente gosta de se prender a fantasias bobas sobre qualquer coisa, é como um refúgio para eles. Tento ignorar a janelinha do MSN, afim de desligar essa coisa e ir fazer algo  no mundo real, mas o nome escrito na caixinha me prende. Quando é que ela me deixará em paz afinal de contas? Será que ainda não sofri o suficiente por isso? “Isa, quanto tempo :)” vejo escrito e me questiono quarenta vezes se devo responder ou não. Responder significa dá outra brecha a qualquer parte de um passado partido ao meio. Estamos grandinhas agora, temos que deixar a vida continuar, crescer. Na prática é bem mais difícil. A verdade é essa: Você sempre vai se lembrar de alguma namorada idiota que conheceu na época da escola. Lembro-me bem quando a vi pela primeira vez, era o primeiro dia do último ano escolar, para mim, eu estava com meus amigos fazendo a rotineira ronda pela escola, subindo e descendo a fim de apenas conversar e dar boas risadas. Ela simplesmente passou ao meu lado, e o mundo meio que parou por alguns segundos,  minha mente ficou girando bem devagarzinho, slow motion, enquanto eu reparava em  cada detalhe de seu rosto meio angelical meio devastador, olhos azuis, cabelos pretos e curtos, ela tinha uma rosto tão intrigante, tão encantador. Senti que era ela, não sei, não tinha uma plaquinha escrito “sou eu” mas senti uma vontade imensa de conhecê-la melhor, de saber seu nome, de estar perto dela. Hoje quando lembro deste dia penso que não passou de uma típica paixão adolescente. Todo mundo passa por isso certo? Resolvi ser um pouco adulta e respondi “Oh, olá Nick, tudo bem? Realmente muito tempo se passou”. Então ela respondeu “Estou bem, obrigada.” Ok, então é isso, me diga tchau e vamos voltar para nossas próprias vidas. “Sei que você ainda não me esqueceu.” E isso é para me infernizar, de toda forma, toda vez que ela resolve aparecer em algum canto é para fazer isso, tentar me levar a loucura. Felizmente dessa vez irei apenas ignorar, mandei uma carinha sorridente e desliguei o computador, simplesmente a odeio, porque as coisas ficam bem mais fáceis se você transforma amor em ódio.
*                         *                          *
Deito na cama afim de esquecer qualquer recente que tenha me passado pela cabeça, no entanto não algo assim tão fácil, meu celular toca e é o Ramon me chamando para ir a alguma baladinha com ele a qual eu recuso, neste momento sinto que a minha melhor companhia é a solidão em mim mesma. Afim de entender um pouco mais de mim mesma, é estranho não lembrar um pouco agora de como tudo aconteceu entre eu e a heartbreaker, lembro de nossa primeira conversa onde tudo parecia fantasia olhando de agora, tudo vislumbra como um astro perdido e assim são as lembranças, elas aparecem de vez em quando para nos tirar do ar, nos fazer relembrar de coisas que provavelmente nunca poderemos nos esquecer por completo.
- Você acredita em alma gêmea?
- Não, mas talvez... Depois de hoje eu passe a acreditar – Foi o que respondi antes de toma-la em meus braços e lhe beijar deitada em um gramado escondido em algum canto de nossas memórias.

Os beijos, eu me recordo do sabor dos beijos. Suaves, macios e tão doces. Lembro que não gostei do nosso primeiro, fomos motivadas pela agonia de todos ao redor que queriam que este momento acontecesse logo, aquelas velhas chantagens emocionais que os amigos fazem, porém sabíamos que tínhamos entre nós um momento especial, que tudo aquilo se passava como provações particulares entre nós.  Lembro-me melhor do segundo, foi espetacular, fomos ao cinema, eu e você apenas,  assistir a algum filme que não consigo mais recordar o nome, nos sentamos em alguma fileira e tudo parecia ser espetacular, fogos de artifícios não conseguiram transcrever o sentimento pulsante que senti naquele momento, ninguém nunca poderia provar da mesma suavidade que eu estava provando, era tudo tão novo, tudo tão encantador, tão a prova de qualquer erro.  Só que eu estava errada. Eu sempre estava errada com relação as pessoas. Hoje agarrada a este travesseiro sinto que só eu vivi esses sentimentos, você só estava lá  para ser a figurante perfeita de meu sofrimento.
*                         *                          *
Acordei a espera de qualquer coisa motivadora para sair da cama, me vesti calmamente afim de prolongar mais minha estadia em meu quarto, entrei no carro e fui para o trabalho. Maldita editora a qual trabalho fazendo revisão de textos e às vezes escrevendo artigos, neste momento só vejo pilhas de textos esperando para serem corrigidos e encaminhados para impressão. Na hora de almoço me dirijo ao restaurante no fim da rua, não tem a melhor comida, mas pelo menos posso sentar na mesma perto da janela, observar os carros e fazer o que faço de melhor: refletir sobre a vida.
- Isabela, querida, se importa se eu sentar aqui?
É muita coincidência, Peculiaridade muito frequente na minha vida.
- Claro que não, fique a vontade. – respondo quase cortando os pulsos.
- Obrigada. – Rosto de anjo, olhos ameaçadores, boca convidativa e um passado amaldiçoado para me lembrar do quanto isso tudo está muito errado – Nunca vi aqui antes, vi você assim que entrei.
- É, eu sempre venho aqui, trabalho aqui perto na verdade...
- Você está ótima, o tempo lhe fez bem! Sinto saudades... – disse com tanta segurança que parecia estar esperando que corresse e me jogasse aos braços dela.
Vontade eu teria se não tivesse sido tão desastroso para mim da última vez em que ela reapareceu em minha vida, naquela mesma janelinha do MSN dizendo “venha me ver” e eu tola fui, sabe como são as pessoas que acreditam em amor predestinado? Elas realmente acham que qualquer coisa é literamente tudo, até que se jogam no chão com o coração sangrando até a alma morrer.  Peguei um ônibus, comprei até alguns chocolates que eu sabia que ela gostava, cheguei um pouco atrasada no lugar que combinamos, era um Café bem lindo e arrumado, decorado com flores vermelhas e rosas. Ela me recebeu com um abraço caloroso, me encheu de tantas palavras bonitas, tantas palavras esplendidas que se tornaram nós de pedra em meu cérebro.
- A partir de hoje, seremos só você e eu, vamos esquecer tudo que aconteceu antes, agora somos pessoas diferentes, podemos fazer isso funcionar de verdade Isa, eu nunca deixei de pensar em você uma única noite.
E então vieram os dias seguintes e a ausência de qualquer som. O telefonema avisando que estava apaixonada por qualquer outra pessoa veio feito ferro quente. “ok” eu falei, “siga em frente, seja feliz, podemos ser boas amigas”, boas amigas da qual nunca fomos e nunca iremos ser. A apaguei de todas as minhas redes sociais, bloqueei seu e-mail, seria interessante se eu pudesse apaga-la do mundo, arrasta-la com o cursor e jogar na lixeira. O que tinha se tornado um anjo por alguns minutos tinha voltado a ser um demônio.
- Dessa vez eu mudei Isa, sou outra pessoa. – insistiu mal tocando em sua comida
- Como das outras vezes? Você é sempre a pessoa que muda e espera que todos fiquem ansiosamente aguardando qual será o próximo traço da sua personalidade de mutante.
- Agora é você quem anda assistindo filmes demais.
Filmes ela diz e eu novamente vago, desta vez para uma lembrança calorosa, poucos dias antes de nosso primeiro e mais doloroso rompimento estávamos sentadas em sua sala assistindo a algum filme que passava na TV a cabo, comendo chocolate com sorvete e desejando que aquele momento durasse para sempre.
- Você vai ficar sempre comigo não vai? – perguntou Nick de repente
- Claro que sim amor
- Então prova
- Como?
- De qualquer jeito, apenas prova.
- O que você quer que eu faça? Quer que eu grite? EU TE AMO NICOLE AMORIM! – Gritei por todos os 4 cantos da casa, ela sorriu me abraçando, caímos no chão até que percebi  lagrimas começando a rolar de seus olhos.
- É que, eu tenho tanto medo de te perder, de acontecer alguma coisa...
- Acredite em mim – disse segurando suas mãos e beijando suas lágrimas
Essa é uma parte de toda a história da qual eu menos gosto de acessar, é como se eu tivesse criado uma pasta secreta em meu computador e colocado-a lá, com senha para que eu mesma me lembrasse do quanto isto era perigoso, um vírus qualquer. Então é assim que iria ser, sempre me amedrontando, me pesquisando em suas listas de contato, dizendo que nunca tinha me esquecido e me atormentando mentalmente e emocionalmente sempre que pudesse. Eu queria ser forte como o Ramon pedia para eu ser, mas isso era meio que utópico.

- Estou atrasada para o trabalho – Levantei
Ela me fez prometer que eu iria pensar sobre nós, sobre nossa história, disse que eu me lembraria e saberia como nosso destino foi escrito nas estrelas. Quais? Me lembraria de perguntar da próxima vez. Sai do trabalho um pouco mais tarde, com medo de enfrentar a mim mesma, não poderia ser estúpida mais uma vez, já sabia como isso iria terminar, com outra pessoa envolvida na história, aparecendo do além e sem culpa alguma. Eu vivia tão bem sem remexer meus sentimentos, seguia dia após dia, feliz, sorridente e contente por qualquer coisa, não precisava de nada disso. No entanto, quando a janelinha do MSN piscava, meu coração explodia de ansiedade, esse era o problema: meu próprio coração me enganava, me fazia acreditar que estava tudo bem, sendo que tudo já era uma completa bagunça.
*                         *                          *
Cheguei em casa, tomei um banho quente, sentei-me a mesa de jantar com meu irmão, conversamos sobre tudo sobre a vida dele, o quanto ele estava feliz no novo emprego, e sobre como ele tinha conhecido uma menina noite passada que o deixara animado e novamente cheio de esperanças, o incentivei. Acho tão lindo quando ele sorri com aquelas covinhas. Disse que iria dormir mas fiquei novamente em frente a máquina dos mortais, subindo e descendo as telas como se fosse ter alguma novidade, nenhum e-mail além dos mesmos, nenhuma noticia interessante, um amigo convidando para sair no domingo, outra conhecida pedindo para comentar suas fotos, e assim seguia-se o percurso natural da internet.
Resolvi criar coragem, abri a caixa de e-mails enviados, desci até o final, passei todas as páginas e encontrei os e-mails enviados bruscamente de dois anos atrás, sabia que eles seriam importantes para este momento. Reli e-mails dos quais escrevi com alma sangrando, revivi a parte da história que era proibida, espetei meus dedos nos espinhos da rosa, agora tudo era vermelho assim como suas pétalas ensanguentadas.
- Não caia em um poço sem escadas – meu irmão dizia.

*                         *                          *
As três horas da madrugada meu celular toca desesperado em cima do criado-mudo, luto contra meu sono para conseguir pegar, sinto uma pontada em meu coração, dolorosa ela é, não deve ser algo bom, sinto um pressentimento azedo dentro de mim.
- Isabela, você está acordada? – Perguntou Nick do outro lado da linha
-hum hum
-É... que... sabe, eu não sei se posso esperar até o fim da noite, eu preciso saber Isabela, eu preciso saber.
- Não há nada para saber.
- Como não há? Eu te amo Isabela, você não consegue perceber, eu te amo! Tudo que eu fiz, tudo que eu falei, foi errado, eu era nova e boba, eu não sabia o que era ter o sentimento de alguém, eu não entendia o que era amar, eu...
- Mas eu sabia, e eu te amei, vorazmente, como ninguém nunca te amou.
- Então porque...
- Porque os seus sentimentos não são reais! Você não sabe nada do que você esta falando, quem sempre fica machucada nessa história sou eu. Você espera que eu acredite que você me ama, sendo que você aparece uma vez a cada ano depois de levar um fora de alguém?
- Isso não é verdade.
- Nós não somos verdade.

Desliguei o celular, arranquei bateria, joguei tudo o mais longe possível do meu alcance. Estava transtornada, lágrimas não paravam de jorrar de meus olhos, e tudo tinha acontecido mais uma vez, ela tinha voltado e ido embora. Dessa vez ela iria embora e eu não iria continuar esperando, eu iria arrancar do meu coração qualquer esperança. Eu tinha que ser má comigo mesma para poder esquecer, eu irei me amarrar nesta cama, irei sair sem minha mochila de sentimentos, irei conhecer o mundo cru e devastador como ele é. Serei eu a que seguirá em frente e encontrará uma história real para viver, o passado já me condenou o suficiente e agora eu o condenarei.

Priscila Trindade

Vire a esquerda

Se eu pudesse voltar ao passado
queria encontrar-me em forma física
me olhar nos olhos e sorrir
me lembrar de que a vida ainda é boa naquele momento
que tudo após disso é o fruto prioritário dos meus desejos e anseios
me diria para correr livre mais uma vez
dá mais de uma volta na curva essencial da vida
me encheria de orgulho ver você fazer a coisa certa, eu me diria.
Escolha outros caminhos
Encontre novas passagens
desvie dos problemas que você vê a sua frente
mas não consegue de fato enxerga-los
Se dê uma chance.
Eu já sabia de tudo
Mas eu era cega demais para entender
Eu conhecia a minha alma mas acabei-a suprimida
Eu mesma me desvirtuei do meu verdadeiro eu
e agora me resta a dúvida de sua existência real.
Por favor, querido eu
'peque' a estrada para a esquerda dessa vez.

Priscila Trindade